Desalojados pelos incêndios perto de Madri temem um 'desastre' natural
Elvira Menéndez mal dormiu na noite passada porque não se sente "como em casa" no ginásio onde está abrigada porque há "cães, gente roncando", conta esta moradora do povoado de Chapinería, evacuada na sexta-feira (24) pelo incêndio fora de controle registrado a oeste de Madri.
Assim como outras cerca de 200 pessoas, ela encontrou refúgio neste amplo ginásio poliesportivo em Villaviciosa de Odón, a 30 km de seu povoado, nos arredores da capital espanhola.
Aqui, a dezenas de quilômetros do inferno que devasta a zona rural madrilense, o céu seguia encoberto na manhã deste sábado por causa da fumaça, e o histórico mosteiro de El Escorial, importante destino turístico do país, estava envolto em uma neblina cinzenta provocada pelas chamas.
O incêndio "superou todas as barreiras", afirma Mar Nicolás, prefeita da pequena localidade vizinha de Brunete, município que recebe uma centena de evacuados.
A prioridade, ressalta, é "salvar vidas", mas ela tampouco esconde sua preocupação com "o desastre tão grande da natureza que está causando tudo isso".
No ginásio de Villaviciosa de Odón, voluntários tentam entreter as crianças com jogos e desenhos para colorir, enquanto outros distribuem comida.
"Temos sido muito bem atendidos. Então, não temos nenhuma queixa", conta Elvira.
"Tenho 80 anos" e "nunca tinha visto" um incêndio como o atual, diz esta mulher, que admitiu ter sentido muito medo de ver toda a "sua vida" queimar.
Neste sábado, o fogo já tinha devastado mais de 25.000 hectares e 60.000 pessoas tiveram que ser evacuadas, segundo os dados oficiais mais recentes.
Victoria Hurtado, assistente domiciliar de 61 anos, também precisou fugir de Chapinería juntamente com o idoso doente de quem cuida diariamente.
Ambos só tiveram tempo de levar uma bolsa cada um com alguma roupa e medicamentos.
"Fomos recebidos com o braços abertos", conta à AFP, embora se mostre preocupada por não saber quando poderá voltar para casa.
Mas, ela se mantém otimista e confia que a situação melhore "porque os bombeiros fazem o impossível para acalmar isso".
- Vegetação inflamável -
Estes incêndios violentos, que devastam a França e a Espanha, são consequência de florestas e vegetação muito inflamáveis pela seca e pelas ondas de calor excepcionais que se sucederam na Europa ocidental desde junho.
Antonio Luis Rodríguez passou a noite no ginásio de Villaviciosa de Odón com seu filho.
Ele saiu com a roupa do corpo e está muito preocupado com sua cadela que ficou em seu sítio, nos arredores do povoado de San Martín de Valdeiglesias, também evacuado.
"Muito afetado" pela tragédia e ainda em estado de choque, este homem de 48 anos não poupa criticas às autoridades que, segundo ele, não limparam o campo suficientemente.
"Ultimamente não limpam o campo aqui. Está muito mal e, então, o mínimo que queime, arde como pólvora", diz.
Ele também lamenta o abandono de muitas áreas agrícolas.
Antonio Luis colocou ovelhas em sua propriedade quando "o capim estava alto" para que limpassem a vegetação, e por isso confia que seu sítio segue de pé, embora "as do entorno foram carbonizadas" pelo fogo.
Ele se diz convencido de que deixar mais rebanhos de cabras e ovelhas na montanha "ajudaria muitíssimo” a controlar os incêndios.
F.Vasiliou--AN-GR