Castigada pela insegurança, Rocinha vota sem esperança
Cansados da insegurança e da luta para fechar as contas do mês, os moradores da maior favela do Rio de Janeiro vão às urnas neste domingo (4) sem esperança de que seu voto mude a realidade da maior favela do Rio de Janeiro.
Enormes filas se formaram nas ruas da Rocinha, uma comunidade de cerca de 100.000 habitantes, para o primeiro turno das eleições entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
"Está uma pouca vergonha esse país", diz à AFP o aposentado Antonio Machado, de 70 anos.
"O político só te procura nessa época de eleição. Mas depois ele não sabe se você existe", lamenta.
Como muitos moradores da Rocinha, Machado está farto da insegurança provocada pelos grupos armados que dominam a favela, o que desencadeia incursões policiais frequentes e muitas vezes letais em suas vielas sinuosas.
"Você não tem segurança na rua. Nem dentro da sua casa você está seguro", comentou. "Você está dentro da sua casa, entra bala perdida".
- 'A opção que temos' -
A insegurança é uma das principais preocupações dos eleitores nestas eleições.
Flávio Bolsonaro elogiou as controversas políticas de segurança do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Ele promete restabelecer o controle do Estado sobre as áreas dominadas por grupos criminosos como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Pretende classificá-los como organizações terroristas, depois que o governo do presidente americano, Donald Trump, fez isso meses atrás.
Lula também prometeu "recuperar o território" e "asfixiar" a logística dos grupos armados, que sobreviveram a numerosas ofensivas policiais e mudanças de governo.
"É uma coisa que já vem se arrastando anos e anos", disse à AFP a biomédica Fabricia de Melo sobre a violência.
Para De Melo, de 27 anos, Lula é um mal menor: "Não que seria a melhor das opções, porém, é a opção que a gente tem no momento".
O pai de Flávio Bolsonaro, o ex-presidente Jair Bolsonaro - preso por uma tentativa de golpe de Estado -, incentivou durante seu mandato a intervenção policial em bairros assolados pela criminalidade.
"Eu como pessoa preta, eu não confio na polícia. Eu tenho medo da polícia. Porque também quando eles entram, invadem casas, agridem pessoas", disse De Melo.
A polícia matou, em média, 17 pessoas por dia no Brasil entre 2019 e 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
- 'Deixa a desejar' -
Lula é admirado por muitos graças aos programas sociais que tiraram milhões de brasileiros da pobreza em seus dois primeiros mandatos, na década de 2000.
A paciência, porém, está se esgotando.
"Não é um governo que me agrada muito, não fez nada", disse à AFP Maicon Santana, pedreiro de 22 anos.
João Batista, trabalhador do setor de tecnologia que votou em Flávio Bolsonaro, criticou o preço dos produtos básicos. "Pra mim, esquerda não dá mais", afirmou.
Lula apresentou uma série de medidas populares nas últimas semanas da campanha, como aumentar os benefícios sociais e proibir as apostas esportivas on-line, que levaram muitas pessoas ao vício em jogos e ao endividamento.
"Eu acho que ele fez uma boa parte pela população, mas também deixa a desejar, porque muitas das coisas que ele prometeu na eleição passada que não cumpriu nessa", avalia Raissa Gonçalves, de 21 anos.
O.Karatzas--AN-GR