Athens News - Como apostas sobre as eleições brasileiras se tornaram falsas pesquisas?

Como apostas sobre as eleições brasileiras se tornaram falsas pesquisas?
Como apostas sobre as eleições brasileiras se tornaram falsas pesquisas? / foto: Pablo PORCIUNCULA - AFP

Como apostas sobre as eleições brasileiras se tornaram falsas pesquisas?

Mesmo proibida no Brasil desde abril de 2026, a plataforma de mercado de previsões norte-americano Polymarket surgiu como um personagem improvável nas eleições no país, ao ser utilizada, principalmente pela direita, como métrica válida de intenção de voto, em meio à descrença em pesquisas eleitorais.

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A Polymarket é uma plataforma onde usuários negociam palpites sobre a chance de eventos acontecerem, como a data de um possível cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia ou o resultado da eleição presidencial brasileira, disputada entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Bora se livrar do Lula para sempre hoje votando no Flávio Bolsonaro”, escreveu no X Paulo Figueiredo, influenciador próximo do candidato do PL, ao compartilhar, durante o primeiro turno, um gráfico da Polymarket em que o senador aparece com 63,2%.

No cenário real, Flávio Bolsonaro alcançou 47% dos votos frente a 45% de Lula.

Frases como “Flávio Bolsonaro disparou na Polymarket” e “Lula já perdeu” tomaram as redes sociais com gráficos que atribuem uma porcentagem de mais de 80% ao candidato do PL, indicando que a sua vitória no segundo turno em 25 de outubro é certa.

- Apostas mobilizam as redes e movimentam milhões -

Breno Adaid, especialista em métodos quantitativos, explicou à AFP que as porcentagens dos gráficos são uma representação do valor pago para comprar o palpite e que sofrem influência com a entrada de novos apostadores.

A Polymarket destacou à AFP que os eventos da plataforma não constituem “pesquisas eleitorais, projeções oficiais ou manifestações de apoio a qualquer candidatura”.

Os mercados de previsão foram proibidos no país pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) em abril de 2026 sob a justificativa de que a falta da regulamentação poderia contribuir para o endividamento da população.

O movimento do governo brasileiro acompanha a restrição de uso em outros 38 países, como França, Alemanha e Japão.

Mesmo assim, as apostas sobre as eleições brasileiras na Polymarket somam mais de US$ 180 milhões e acumulam dezenas de comentários em português.

Isso pode indicar que brasileiros têm se aproveitado da brecha oferecida pelo uso de redes privadas virtuais (VPN) para acessarem essas plataformas.

Esse método já foi incentivado por Eduardo Bolsonaro — irmão do candidato do PL e ex-deputado que está exilado nos Estados Unidos desde 2025.

Pessoas próximas no presidente Donald Trump, aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flavio e Eduardo, aproveitaram a proibição para atacar o Lula.

“A probabilidade de Flavio Bolsonaro vencer o segundo turno da eleição presidencial brasileira no Polymarket é de 89%…. Então, o que Lula fez? O de sempre, baniu o Polymarket no Brasil”, escreveu no X Martin de Luca, advogado da Trump Media e da Rumble.

- Descrença em pesquisa eleitoral alimenta conteúdos -

Para Bruno Mattos, coordenador de projetos no NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a descrença nas pesquisas eleitorais — que subestimaram a vitória da direita nas últimas eleições — pode explicar o porquê internautas adotaram essas porcentagens como um indicativo supostamente mais confiável.

Como explicou à AFP Carolina Botelho, cientista política e pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva (INCT/SANI), a pesquisa eleitoral mede a intenção de voto do momento, enquanto o mercado de previsão registra negociações financeiras.

Outra diferenciação é a amostragem: as pesquisas buscam retratar toda a população, enquanto as apostas podem ser feitas repetidas vezes por qualquer pessoa do mundo.

- Desafio para autoridades -

A AFP identificou que internautas destacam a movimentação financeira da plataforma para afirmar que ela é “melhor pesquisa” para analisar as eleições e argumentar que investidores não apostariam em palpites com risco de perda.

A assertividade de 90% atribuida à Polymarket também é usada como justificativa, mas é omitido que os palpites são ajustados conforme surgem mais informações sobre o evento apostado.

Diante do fenômeno no Brasil, o Ministério da Fazenda afirmou em nota enviada em 14 de outubro que a SPA monitora a efetividade da proibição e que pode adotar novas providências para impedir a oferta irregular.

A Polymarket afirmou à AFP estar disposta a contribuir tecnicamente com as autoridades brasileiras.

H.Christodoulou--AN-GR